Sete gráficos que mostram por que hoje precisamos revolucionar tudo

É difícil perceber quando a sociedade começa a pensar de maneira diferente. Uma opinião que muda aqui, uma ideia que surge ali e, quando se percebe, o que era importante virou banal e o que era certo ficou errado. Ao longo de décadas, as opiniões vão mudando desde coisas simples – gelattos que substituem paletas, depois de frozen yogurts e sorvetes – até dietas, práticas médicas e grandes paradigmas científicos. É algo que acontece normalmente em uma escala de tempo muito maior do que as mudanças do nosso dia-a-dia.

Existe, no entanto, uma ferramenta que permite brincar com essas tendências. O Google NGram Viewer é um site relativamente desconhecido, ainda mais quando se leva em conta que ele é algo como um supertelescópio que monitora as mudanças do pensamento ao longo de cinco séculos. Surgiu do esforço do Google em digitalizar todos os livros que aparecessem pela frente e publicar online os que não fossem resultar em processos. O passo seguinte foi quase óbvio para quem está acostumado a lidar com bancos de dados: calcular a frequência com que cada termo – como palavras ou frases – era publicado nos textos, um conceito que tem o nome técnico de “NGram”. E saiu daí o NGram Viewer.

Hoje, é uma das grandes ferramentas da crescente área de “ciência humanas digitais”, que busca usar computadores e bancos de dados para desvendar os mistérios de áreas como história, sociologia, antropologia e literatura. A popularidade de uma palavra em cada época pode ser um bom indício do quanto ela era importante no pensamento naquele momento, e permite que gente encontre tendências que explicam como é o mundo hoje e como chegamos até aqui.

Mas ainda estamos aprendendo as regras dessa técnica, e ela tem um monte de limitações. A mesma palavra pode significar várias coisas diferentes, ou mudar de sentido ao longo do tempo. O NGram Viewer também não leva em conta a popularidade das obras: um best seller tem o mesmo peso de uma obra esquecida na prateleira, e seria difícil detectar o sucesso de Harry Potter, por exemplo, apenas usando a ferramenta. E tem lá seus erros no próprio banco de dados, o que é normal quando você usa máquinas para entender a obscura caligrafia do passado: há, por exemplo, menções a “internet” na década de 1590. E infelizmente para nós brasileiros, ela não está disponível para o português – mas dá para encontrar tendências interessantes buscando em outras línguas.

E algumas palavras sobem ou descem nos gráficos simplesmente por modismo — um exemplo infame é o crescimento da palavra “top” nos últimos anos. Mas outras variações são bem mais profundas, e mostram grandes correntes do pensamento em cada época. Eu separei abaixo algumas das mais curiosas que encontrei, e como elas ajudam a entender a confusão que a sociedade, a economia e os negócios se tornaram nas últimas décadas.

Vejam o que vem mudando nas últimas décadas:

Ficou mais difícil explicar a realidade

Em azul, “fácil” (“easy”); em vermelho, “difícil” (“difficult”)

Uma descoberta que fizemos já no começo do século 19 é a de que o mundo é bem complicado. E depois só piorou. O historiador Eric Hobsbawn deu o nome de “Era dos Extremos” ao período entre 1914 e 1991, que reúne os principais acontecimentos do século 20. Podia ter chamado de “A Era do Difícil.” Foi um período em que tivemos que aprender a lidar com duas guerras mundiais e uma guerra fria, além de revoluções econômicas, ambientais, políticas e sociais. E, até hoje, estamos tentando entender o que aconteceu.

Mas por que tão difícil? Aí precisamos mergulhar um pouco mais nas últimas décadas…

Percebemos que o mundo ficou mais rápido

Em azul, “rápido” (“fast”); em vermelho, “devagar” (“slow”)

A partir da década de 1980, “rápido” passou a ser uma descrição mais comum do que devagar. O mundo não só ficava mais difícil, mas também tudo acontecia de maneira acelerada — o que aumenta a sensação de dificuldade.

O interessante é que essa nova velocidade atingiu cada língua em momentos diferentes. Em alemão e em espanhol, a rapidez já é mais discutida que a lerdeza desde o fim da Segunda Guerra. Já em francês, por algum motivo, essa tendência vem de muito antes, desde os tempos da morte de Napoleão, em 1821.

E não temos certeza de nada que está acontecendo

Em vermelho, “incerteza” (“uncertainty”); em azul, “certeza”(“certainty”)

No começo do século 20, a ciência tinha evoluído a ponto de nos dar a impressão de que tudo poderia ser calculado. Acreditava-se que era só pesquisar o suficiente que seria possível um dia ter certeza de tudo e prever todos os acontecimentos. Essa ilusão veio abaixo ao longo das últimas década. Descobrimos que todos os assuntos que importam — do movimento de átomos até os mudanças da sociedade — misturam diversas disciplinas, tem elementos que não conhecemos e fatores que podem acontecer por simples acaso. Não dá para criar um modelo simples do mundo.

Era preciso um novo modo de pensar que abrangesse todas essas complicações.

Tivemos que aprender a lidar com a complexidade

Em azul, “simples”(“simple”); em vermelho, “complexo” (“complex”)

Uma coisa complexa é algo que surge da interação de diversos elementos. É algo mais do que simplesmente difícil: é imprevisível, que não pode ser planejado ou totalmente controlado, que cresce ou entra em colapso por suas próprias regras. Alguns exemplos são corpo humano, a economia, o clima, uma floresta, um país ou a sociedade. E, nas últimas décadas, vimos surgir um mundo bem mais complexo, conectado por meios de transporte, pela comunicação eletrônica, pelo comércio global e por ideias que se espalhavam a todas as partes.

E começamos a aprender a lidar com essas coisas complicadas. Nas ciências exatas, descobrimos o quanto são comuns os chamados “fenômenos não lineares”, em que uma pequena modificação pode mudar o sistema como um todo — algo que ficou popular a partir do “efeito borboleta”, segundo o qual o bater de asas de uma borboleta pode causar um furacão a milhares de quilômetros dali.

Nas ciências humanas, precisamos usar explicações interdisciplinares — que misturam cultura, economia, design, política, legislação e engenharia — para resolver problemas que parecem simples, como guerras ou o trânsito.

O interessante é que cada língua percebeu essa mudança rumo ao “complexo” de maneira diferente. Enquanto no inglês o “complexo” nunca foi mais popular que o simples, em alemão, na década de 1970, ele chegou a ser quatro vezes mais mencionado. Em espanhol, “complexo” se tornou mais comum a partir de 1938, e, em francês, “simples” parece sempre ter sido a norma e permanece assim até hoje. Aparentemente, franceses são mais tranquilos.

Crises se tornaram a regra

Em azul, “crise” (“crisis”); em vermelho, “estabilidade” (“stability”)

A palavra “crise” sempre foi mais discutida do que a estabilidade, com exceção de um breve período na década de 1950 — talvez porque, depois de duas guerras mundiais, tudo parece meio calmo. Ainda assim, há algo de especial nas últimas décadas: a partir dos anos 1970, a disparidade entre crise e estabilidade aumentou de forma acelerada.

É algo bastante conectado ao que acabamos de dizer, de que o mundo está ficando mais rápido, difícil e complexo. O motivo é que, em um sistema simples e fácil, é bem fácil conectar um problema a uma causa. Você consegue ir lá e simplesmente consertar o problema. Já nos sistemas complexos, as coisas entram em colapso subitamente, e você tem que administrar a crise ou “cultivar” uma solução. Um exemplo: um liquidificador (um sistema simples) quebra; a economia (complexa) entra em crise.

Tente imaginar então o cenário em que as empresas tiveram que crescer nas últimas cinco décadas. Um mundo difícil, incerto, rápido, complexo e sujeito a crises exige soluções igualmente sofisticadas. Era preciso ir além em qualquer proposta…

Não bastava mais inventar — era preciso inovar

Em vermelho, “invenção” (“invention); em azul, “inovação” (“innovation”)

Uma invenção é simplesmente algo que você cria. Junte duas peças para fazer uma terceira e parabéns, você é um inventor. Hoje, essa é uma atividade bem comum — praticamente todo mundo monta alguma gambiarra para melhorar a vida. Qualquer pessoa que sabe programar já inventou ao menos meia dúzia de softwares para resolver seus problemas.

Já uma inovação é mais difícil: você precisa inventar algo que responda a uma necessidade real de outras pessoas, que traga eficiência e que obedeça à regulação. Envolve a complexidade de misturar pessoas, máquinas e processos. É algo bem mais raro, e requer aliar a criatividade a um senso de negócios.

Mas o que aconteceu quando um grande número de inovações começou a se acumular, de maneira cada vez mais rápida?

E, em vez de avançar o que existia, o foco passou a ser em revolucionar

Em vermelho, “avanço”(“advancement”); em azul, “disrupção” (“disruption”)

Em um mundo previsível e mecânico, o mais importante é avançar as tecnologias e otimizar cada vez mais o que já existe. Mas, hoje, qualquer produto ou processo pode se tornar obsoleto por revoluções rápidas, imprevisíveis e que podem vir de qualquer lugar. Nesse cenário, gastar muito tempo ou dinheiro melhorando uma mesma coisa é perigoso.

O importante, hoje, é você mesmo ser parte da mudança. O termo “disrupção” se refere a produtos novos, que surgem nas margens de um mercado, atendendo a consumidores bem específicos, a princípio de maneira nem tão eficiente. Mas, com o tempo, crescem, sofisticam-se, mudam grandes mercados e geram lucros extraordinários. Eles partem do princípio de que tudo está interligado e complexo, que é possível começar pequeno, conquistar o mundo pouco a pouco, e se transformar até virar algo grande. Eles tiram proveito da complexidade.

Curiosamente, tanta disrupção acaba tornando o mundo mais complexo, difícil, incerto e rápido, e estimulam mais disrupções… Ao que tudo indica, as curvas dos gráficos ainda vão manter essas tendências por um bom tempo.

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